A Casa Linhares constitui um dos mais importantes marcos históricos do Bairro da Barra, em Balneário Camboriú. Construída por volta da década de 1950, a edificação surgiu inicialmente como um armazém de secos e molhados, onde eram comercializados alimentos, tecidos, especiarias e outros produtos essenciais à população local. No mesmo espaço, residiam seus proprietários, primeiro o Sr. Lindolfo Linhares e, posteriormente, seu filho, o Sr. Ademar Rebelo Linhares, junto de suas famílias.
Em um período em que a maioria dos moradores da região vivia da pesca artesanal e da agricultura familiar, a Casa Linhares desempenhou papel central no abastecimento da comunidade, sendo por muitos anos o principal — e por vezes único — ponto de comércio acessível, já que o centro comercial mais próximo situava-se na antiga Vila dos Garcias (atual centro do município de Camboriú).
A construção, em alvenaria de dois pavimentos, preserva até hoje características originais, como o telhado de quatro águas, as vigas de madeira maciça falquejada (trabalhadas manualmente), os tijolos maciços e as janelas coloniais. As telhas foram produzidas pela tradicional Olaria Bastos, atual Cerâmica Bastos, vinculada à família de Néia Bastos, esposa de Ademar Linhares. O casal, que se uniu em 1956, constituiu uma família numerosa, com 11 filhos, consolidando sua presença como uma das famílias pioneiras da localidade.
Após o falecimento de Ademar Rebelo Linhares, em 1993, o imóvel passou a ser utilizado para fins comerciais diversos. Em 2004, a Prefeitura de Balneário Camboriú promoveu sua restauração, destinando o espaço à Fundação Cultural e à Escola de Arte e Artesanato “Cantando, Dançando e Tecendo nossa História”, iniciativa voltada à valorização das tradições culturais e ao fortalecimento da identidade local.
Localizada na Praça do Pescador, em frente à Capela de Santo Amaro, a Casa Linhares integra um conjunto de grande relevância histórica, ligado à antiga Freguesia do Bom Sucesso, núcleo administrativo de Camboriú em períodos passados. O local foi palco de importantes manifestações sociais e culturais, como festas religiosas, desfiles cívicos e eventos comunitários.
Em 19 de março de 2016, após intervenções de restauro, a Casa Linhares foi oficialmente inaugurada como o primeiro Ponto de Memória de Balneário Camboriú, reforçando seu papel como espaço de preservação e difusão da história local. Atualmente, o imóvel é de propriedade do município e está sob administração da Fundação Cultural de Balneário Camboriú.
Nos últimos anos, o espaço tem passado por novas adaptações para atender às demandas contemporâneas da comunidade. Em janeiro de 2025, a Casa Linhares passou a sediar a Subprefeitura da Região Sul, centralizando serviços públicos e facilitando o atendimento à população local. No mesmo período, foi iniciada a reforma do galpão anexo, espaço utilizado para oficinas, cursos, exposições e reuniões comunitárias, que apresentava problemas estruturais como infiltrações. As obras incluíram melhorias no telhado, paredes, piso, pintura e substituição de portas, visando ampliar e qualificar o uso do espaço para atividades culturais, como artesanato, capoeira e manifestações tradicionais.
A relevância histórica e simbólica da Casa Linhares foi reforçada com a promulgação da Lei nº 4.975, de 21 de janeiro de 2025, que instituiu a transferência simbólica anual da sede administrativa do Município de Balneário Camboriú para o prédio da Subprefeitura da Barra, instalado na própria Casa Linhares, no dia 26 de abril. A data remete à fundação do antigo Distrito de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Camboriú, oficializada pela Lei Provincial nº 292, de 1849. A legislação determina que as solenidades e atos oficiais realizados na ocasião resgatem os fatos históricos relacionados à formação da localidade, a memória do antigo arraial e promovendo o fortalecimento institucional da região da Barra, além de incentivar a descentralização administrativa do município.
Dessa forma, a Casa Linhares mantém-se como um espaço vivo da história de Balneário Camboriú, articulando passado e presente. Mais do que um patrimônio edificado, representa a continuidade de práticas sociais, culturais e institucionais, preservando as memórias de uma das famílias pioneiras da região e reafirmando sua importância na construção da identidade local.
Texto escrito por Luís Henrique Palácio da Silva, Historiador da Fundação Cultural de Balneário Camboriú



















